Envelhecer


Ao mestre
“Você pode ler o poema do Mario Quintana pra gente?” A voz do professor ecoa brandamente, muito mais gentil do que eu esperaria.

Eu olho o livro, leio o título, volto a olhar para ele.

Eu não preciso ler esse poema pra falar.

“Antes, todos os caminhos iam.” minha voz está rouca, e eu consigo sentir isso, mas não me resta vontade o suficiente para sequer pigarrear.

“Agora todos os caminhos vêm.” eu lembro a primeiro vez que eu li esse poema, num livro de português da segunda série. Eu lembro de ter ficado maravilhada pela simplicidade, e eu lembro de chorar quando o li novamente num livro de poemas que me deram.

“A casa é acolhedora, os livros poucos.” esse poema está grifado no meu livro, e tem sempre um marca página no livro, guardado no criado-mudo perto da minha cama. Toda noite eu o leio, como uma oração.

“E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.”

Eu gostaria de ter conhecido Mario Quintana, de poder sentar do lado dele, de poder virar, com um sorrisinho besta e cheio de segredos bobos, e dizer (sussurrar, realmente, como se falando para um amigo):

Eu tenho fantasmas também, senhor Quintana.

Mas são eles que preparam o chá pra mim.

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