tudo o que eu nunca contei

(26 de dezembro, 00:35)
Drama sempre fez parte da minha vida, de certa forma. Talvez eu devesse ter me tornado uma atriz de teatro, bem caricata, dramática aos extremos, e hoje eu admito isso para qualquer um que me veja na rua, mas por muito tempo eu tinha vergonha de ser assim, eu tinha vergonha de muita coisa.

Eu acho que isso acaba acontecendo pra muita gente, principalmente quando tá crescendo, você quer fingir ser alguma coisa que você não é, porque aí ninguém vai fazer graça do que você leva por dentro, só do que você deixa aparecer.

Eu li dois livros muito bons esse ano, que falavam exatamente isso, sobre como todo mundo acaba vivendo de aparência, como o que acaba importando é o que você parece ser. Então você se molda de alguma forma que seja o mais longe o possível de você sem estar realmente mentindo.

Eu não era como as outras garotas. 

Eu fingia.

Eu cresci sendo o exemplo perfeito de uma princesinha, temos que ser sincero. Eu sempre amei rosa, eu sempre gostei de brincar de bonecas, de assistir televisão e de ser criança. Era bom ser criança, quando era todo mundo igual, quando meus dentes eram só tortos e eu falava esquisito.

Era bom se eu não olhasse muito perto. Mas a gente acaba crescendo e talvez aquilo que eu era talvez não fosse o melhor pra mim porque as meninas do colégio novo estavam olhando torto, rindo de canto.

Eu acho que passei quase dez anos sem ver a cor rosa direito. Eu lembro que eu devia ter uns onze, doze anos, e nessa idade crianças ainda brincam de boneca, eu sei que sim, mas eu doei todas que eu tinha, toda a minha extensa coleção de Barbies. As bonecas, as roupinhas, os móveis e acessórios.

Eu virava a cara para a televisão, só usava preto, lia livros de YA pelos cantos e reclamava das coisas dentro da minha cabeça, porque era assim que eu tinha que me comportar. Minhas fotos provam isso claramente, da garotinha de rosa e batom pra jovenzinha de roupa larga e cara lavada.

Não me entendam mal, eu gosto de preto, pra falar a verdade eu quase só uso preto, e nunca me importei com a cara lavada pois convenhamos que é muito mais fácil de ficar pronta quando não tem maquiagem.

(eu ainda leio YA, isso nunca foi mentira, nenhum dos meus livros era)

Mas é que quando você tem 14 anos e sabe que vai morrer sozinha, não sobra muito pra ser, então você se agarra ao pouco que notam, você se agarra ao estudiosa, ao madura, ao quietinha, e se tranca no fundo de um baú.

Dez anos virando a cara pra qualquer coisa sentimental mas indo dormir chorando todas as noites porque eu não sabia mais o que era afeto. Fingindo odiar qualquer coisa feminina e roubando maquiagem da mãe quando não tinha ninguém em casa pra tentar me sentir menos pior.

Eu odiava abraços, de verdade, porque eles pareciam gelados mas eu também não tinha recebido um abraço mesmo em tanto tempo que eu mesma me abraçava e fazia cafuné todas as noites.

Eu fechava os olhos, sonhava que vivia qualquer vida que não fosse a minha, que eu tinha pais carinhosos e que podia ser quem eu sempre quis ser, ter meus livros, mas poder atuar também… Céus como eu sempre tive esse sonho!

A gente sonha que conhece os ídolos, que se apaixona, né? Eu sonhava em ser abraçada. Aquele abraço apertado mesmo, doído, que a gente enterra o rosto, que é quente, que conforta. Eu podia só imaginar o que aquilo tudo era.

E eu nunca falei disso pra ninguém porque não ia fazer diferença, o máximo que eu ia ter é a dó, e eu além de tudo sou orgulhosa demais pra permitir que vejam o que dói.

(às vezes até tem alguma coisa rosa no meu guarda-roupas)

(eu faço minhas maquiagens, mas sempre tiro tudo antes de sair)

A verdade é que demora muito pra entender que não era aquilo, que por mais que precisasse, não era minha culpa. Demora a me deixar sentir as coisas de novo. Eu hoje tenho muito orgulho de cada pontinho luminoso que eu tenho no meu rosto, de cada trivia sobre novelas, até dos meus exageros, porque sou eu.

Eu sou alguém de verdade.

E talvez eu ainda vá morrer sozinha porque ninguém muda tanto assim, mas se isso acontecer, que seja como a louca dos gatos, a doida noveleira, a menina de rosa. Aquela moça sozinha da casa da esquina.

Que seja, finalmente, eu.
(26 de dezembro, 01:10. Arcade Fire - The Suburbs (continued))

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