Sobre mensagens e shows decadentes
Nós três estamos sentados exatamente nos mesmos lugares, centenas de quilômetros nos separando.
Eu encaro a tela do computador, meus dedos apertam as teclas sem muita gentileza, mas não consigo escutar o tec tec tec. O acordeon da música abafa todos os sons à minha volta. Tem um texto da faculdade aberto na minha frente, e eu sei que deveria estar o lendo, mas às vezes coisas acontecem e você precisa parar um pouco.
Há uma pausa, e eu vejo que alguém está digitando.
Meus dedos apagam a mensagem já pronta.
“Todo mundo diz que o show deve continuar, mas e se eu não sei dançar?” a mensagem pisca em preto e branco, e eu sei que deveria responder. Ao invés disso, eu encaro o texto em cima da mesa.
Pensando bem eu acho que ninguém realmente sabe dançar, nós só sempre esperamos tudo piorar e aí tentamos entrar no mesmo passo das outras pessoas, mas não funciona muito. Depois de levar muito pisão do pé e cotovelada na cara é que a gente começa a perceber isso.
E eu não vejo como nada disso melhorar, não consigo ver ao menos alguma forma do show continuar na maioria das vezes.
Meu cabelo pinga constantemente, molhando as costas do meu pijama.
Eu coloco as mãos no teclado.
“Cada pessoa tem seu próprio ritmo pra dançar.”
Não sou eu quem responde, é um amigo, e eu posso quase ver o sorriso hesitante nos lábios dele. Ele está tentando, com os correspondentes virtuais de tapinhas nas costas.
Mas eu sei que ele não acredita nisso. Ele já viu que não é assim.
Já tomou várias cotoveladas a mais.
A música para de tocar, e eu escuto o barulho incessante das teclas. Como os passos cuidadosos de mais uma pessoa olhando feio pra mim, de mais uma médica com más notícias e mais uma terapeuta com sorrisos artificiais.
“Eu acho que ninguém realmente sabe como dançar.” Eu finalmente aperto o enter.
“Todo mundo finge que sabe até a vida trocar o ritmo da música de novo.”
É verdade o suficiente, o que eu digo, e alguns segundos se passam até eu começar a digitar a próxima mensagem.
“Mas o mais importante é você mesma. Sua música vale muito mais que os Top 40 que a vida insiste em colocar pra tocar.”
Mentira.
E é o meu próprio sorriso hesitante que graceja a tela. Sorriso aberto com feridas que sangram.
Ela acredita. Não tem mesmo outra alternativa.
Nós três estamos sentados exatamente no mesmo lugar, separados por centenas de quilômetros, e eu sei que temos também machucados em meia-lua exatamente iguais em nossas pernas.
Porque ninguém se importa, e é proibido que saibam.
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