Sobre dias e vidrarias

Amanhecia. A janela de vidros azuis deixava entrar a escuridão difusa de mais uma madrugada acinzentada. Os olhos dela fitavam o prédio da frente com curiosidade áspera. As luzes acendiam no início do dia escuro, e suas luzes ainda tinham que se apagar.

Olhou a cama feita e sentou no chão gelado. O livro na mesinha de canto a fitava, desaprovador.

Ela não devia ficar sentada pelo chão sujo assim, ia acabar adoecendo.

Não.

Era nova, resistente, cálida. Os outros livros espalhados pelo quarto a apoiavam em sua decisão. A mocidade a protegeria do mundo.

Lá fora, os cacos de vidro brilhavam vermelhos na meia-luz da sala. Quis rir, mas acabou estremecendo mais uma vez. A brisa que vinha de fora soprava fria, os cabelos longos eram tudo que tinha para se esquentar.

Apoiou os pés na parede desbotada.

Não.

Era velha, frágil, efêmera. O livro em seu colo era seu acompanhante hoje. Eram tão poucos. A lombada machucava suas fracas pernas, mas não ousou o tirar dali.

Lá fora, os cacos de vidro brilhavam brancos na luz do abajur. Sentada na cama, viu alguém recolher os pedacinhos. Permaneceu quieta e a brisa soou morna. Estava agasalhada, com os cabelos curtos bem penteados.


Anoitecia. A janela de vidros acinzentados deixava entrar a luz fraca de mais uma tarde que caía. Os olhos dela deixaram de olhar o prédio da frente com indiferença calculada. As luzes desligaram no final do dia, e suas luzes haviam se apagado fazia muito.

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