Bar
(ao mestre Mário Quintana)
E é no tampo daquela mesa de mármore que eu escrevo uma ordem de letras que no final não são nada demais.
O meu caixão será de mogno, a madeira escura e lustrosa da bancada, que prende o mundo numa reflexão oca, pobre e triste -- a mesma dos óculos e das carecas. E os grilos cantarão nas trevas uma cadência póstuma e melancólica que ninguém escutará.
Lá fora, as pequenas gotas de orvalho estão brilhando na grama fria, como estrelas caídas no chão, e Marechal Deodoro proclama a república num retrato manchado.
Grave, obscuro e lento, o som do universo irradia e o planeta gira sem sair do lugar. Nada sai do lugar. Vive-se, morre-se, tudo se acaba sem realmente sair daqui. Pobres botões — os reluzentes nos meus pulsos e os escondidos no meu cérebro —, que nunca ouvirão a tradução dessa velha música.
Infelizmente nunca aprenderei a tocar o violoncelo.
A vida é muito curta mesmo, não há o que fazer.
No céu, as estrelas formam um C, um E, e no final não formam nada.
Elas nunca formam nome algum.
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