porta

 Descobertas nem sempre são fáceis de compreender, de processar. Descobertas envolvem destrancar portas emperradas, envolvem soprar o pó das fotografias, ver além das metáforas

Descobrir dói, às vezes mais de que o que nos fez fechar a porta primeiramente, porque é uma ferida e se não for tratada ela inflama e se enche de bactérias e de vermes. Eu sei que há quem vê nos vermes que devoram nossos corpos beleza poética, extensão máxima do que é ser humano. Eu já fui assim, não tem problema.

Gostava de dizer que guardava minha alma dentro dos livros da minha prateleira. Eram dois ou três, poucos. Minha alma era pouca também.

Mas livro se compram, prateleiras crescem ponto minha alma já não podia acompanhar mais. Pulava de título em título, máscaras que vestia quando necessário, dançando no meio de fantasias e fotos que não eram minhas.

É preciso de detetives especialmente capazes ou crianças muito curiosas para achar a porta, quiça achar a chave. O detetive pode encontrar a chave de dentro de um pote de flores, entrar pela porta e desmontar tudo. Mas a criança não.

A criança vai sentar no chão, guarda a porta como soldado, se apresentando baixinho. Voz comedida, a criança não procura a chave, não precisa, ela ensina.

A porta escuta, com seus mundos, duro segredo, enquanto a criança, despercebida como poderia aparecer, todos os dias arranca um pouco da porta, até sobrar apenas a madeira apodrecida. E como médico experiente, o faz até não sobrar mais nada.

Montes de papel e porta-retratos se acumulam atrás das cortinas pesadas, partículas de poeira dançam na meia-luz. Para qualquer pessoa, demoraria segundos para que pudesse se acostumar os olhos, mas não para os pezinhos que hesitavam no batente. Havia chegado até lá, o caminho parecia reto, sabia aonde achar o essencial, embora fosse invisível.

Caderno velho, cheiro insuportável de poeira, espinha solta. Manchas e palavras soltas desenhadas na capa, formas desconexas. Estrela, asteriscos, sorrisos e carinhas tristes, contorno das imagens impressas e originais. Caderno amado.

E a criança não precisava abrir, e nem ousaria. Não precisava ver a porta para saber, não precisava do caderno, sabia. Nos redemoinhos de pó, podia ver o infinito, e naquele momento isso bastava.

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