Sobre o verão

"Não sei, comigo vai tudo azul. Contigo vai tudo em paz" - Baby, Gal Costa 



 Ainda não é verão. Ainda. Mas ele se aproxima, cada vez mais rápido. 

A chegada do verão é estranha e nada sutil. Você sente nos ossos, no ar, em como cada pessoa age. É um sentimento confortável em sua familiaridade.

O ar, quanto mais próximo do verão fica, tem cheiro de carne de churrasco e carvão. É quente, abafado e chega a pesar se você tenta respirar muito fundo. Mas não importa.

É engraçado de notar que as pessoas, quando veem o verão chegar, são praticamente consumidas por um espírito de comunidade que ficou completamente em falta no resto do ano. As pessoas conversam no ponto de ônibus, a praia está cheia qualquer hora do dia. Ainda é novembro.

Mas você sente também, obviamente. Assim como tudo ao seu entorno muda, você também volta a fazer coisas que normalmente não faria. Seu corpo faz coisas que pouco comuns no resto do ano. Você gruda em qualquer superfície que está sentado. Sua nuca está perpétuamente encharcada de suor. Sua pele sente aquela ânsia por vento fresco que quase parece soprar. Quase.

É um sentimento desconfortável em sua familiaridade.

Mas no final todo o desconforto vale a pena no primeiro acorde da mesma playlist que você usa há anos, com aquelas músicas que puxa vida, há quanto tempo!

Aquela sobre o Sol, a Lua, um casamento. Aquela outra sobre barras pesadas demais.


E é como rever um velho amigo, abrir uma caixa de fotos antigas.



Não mudamos tanto assim.

E talvez fique aquele silêncio triste, porque tem algo faltando. Alguém. Um velho amigo que não está ali e que a falta naquele dia é pior do que um meteoro destruíndo o mundo.

Mas ninguém quer fazer a pergunta óbvia.

Ninguém nunca quer.

Puxa, o que aconteceu?

E a resposta silenciosa é sempre a mesma, em todo fim de ano, em todo fim da tarde na praia em que você desiste de ficar mudando de lugar pra acompanhar o Sol que se põe no horizonte.

Não mudamos tanto assim.

É verão.

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