Sem Título #1
Ao mestre
A guriazinha, cuidadosamente, desenha as letras do seu nome na vidraça.
Encantadoramente mal feitas, elas se desmancham.
Do outro lado de uma vida, num sofá de espuma no canto de um hospital, ela vira mais uma página do livro.
Ninguém presta muita atenção na cena. Em uma ala psiquiátrica, é de se encontrar de tudo.
Até quem não é louco
O caso é que aquela pessoa já é parte da rotina de quem trabalhava — ou vivia — naquele lugar. Todos os dias, exatamente às sete e quarenta e oito da noite ela vai entrar, sorrir para a mesma enfermeira de sempre no plantão, sentar no mesmo sofá de sempre e pegar o exato mesmo livro de todas as vezes. E lá ela ficará por horas, quase sem se mexer, apenas com o som do farfalhar das páginas indicaria que existe vida naquele canto.
Ninguém perguntou o que ela fazia ali.
Enquanto isso, algumas pessoas morrem, outras nascem.
Entre mortes e vidas, ela vira mais uma página daquele romance policial.
E é na página 293, ela verifica, quando o herói cautelosamente vira o fecho da porta em busca da amada, que ela para de ler.
Olha para cima, para o quadro na parede. Um campo de trigo, muito louro, contra um céu azul, e no canto, a asa única de uma ave.
No livro estão todos parados, completamente à mercê do leitor cruel.
Poder catastrófico, a vida de muitos nas mãos. Será que é assim que Deus se sente? Tomado por um poder que ninguém mais pode ter?
Bem, algumas pessoas devem ter morrido, outras nascido, o ciclo da vida continua.
O problema é que não havia modo de responder suas perguntas, e não havia modo daquele livro acabar.
Lá fora, a chuva acorda os navios piratas do fundo do mar, levanta casas, ruas, cidades e mundos inteiros, dá vida aos cidadãos comuns.
Os guarda-chuvas eram brancos e azuis, o dela era preto.
Seus olhos mortos não tocaram a água da chuva, mas estavam molhados.
Ela não sabia como acabar com aquilo.
Do outro lado, a guriazinha apaga as letras lacrimejantes da janela, e com cuidadoso relaxo, começa tudo de novo.
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